28.5.07

"Sob o domínio do mal", dentro e fora das telas


(Comentário sobre o filme “Sob o domínio do mal”)



Nome original: The Manchurian Candidate
Produção: Estados Unidos
Ano: 2004
Idiomas: Inglês
Diretor: Jonathan Demme
Roteiro: Richard Condon, George Axelrod
Elenco: Denzel Washington, Meryl Streep, Jeffrey Wright, Pablo Schreiber, Dorian Missick, Jose Pablo Cantillo, Teddy Dunn, Liev Schreiber
Gênero: drama, mistério, ficção científica, thriller, guerra
Fonte: “The Internet Movie Database” – http://www.imdb.com/

Imagine como seria se um candidato participante das Eleições Presidenciais dos Estados Unidos fosse um fantoche. Se por trás dele houvesse um grupo de poderosos interesses puxando as cordinhas da marionete. Se grandes corporações pudessem escolher e apoiar um candidato que, uma vez eleito, usasse o governo a favor delas. Se o sistema eleitoral fosse uma farsa montada para que o povo acreditasse que tem algum real poder de escolha. Se a mídia colaborasse para encobrir tudo com uma cortina de glamour e de culto à personalidade. Se as pessoas comuns pudessem saber a verdade sobre os poderes que manipulam o candidato, mas não pudessem dizer nada a ninguém, e se dissessem não fossem acreditadas.

Imaginou? É claro que não. Não é preciso nenhum esforço criativo para figurar tal situação. Não é preciso porque a situação se tornou grotescamente real. Pior que isso. O candidato fantoche não só existe como foi eleito e já está governando para a indústria armamentista e petrolífera.

Não há imaginação capaz de superar a obscenidade da situação real. Desse modo, o filme “Sob o domínio do mal” perde inteiramente o seu propósito. Não há necessidade alguma de um filme para nos assustar com tal hipótese. A hipótese de um candidato manipulado por forças obscuras ser eleito tornou-se tragicamente real. Já vivemos “sob o domínio do mal”, mesmo fora do filme. Não há mais o que temer, não há mais pesadelo com que nos apavorar.

Evidentemente, não se trata de mais um filme-denúncia, com o objetivo explícito de expor a manipulação que domina o candidato realmente eleito nos E.U.A. Se o filme o faz, é apenas elipticamente. Trata-se apenas de mais um filme para diversão, que acidentalmente tem como tema uma trama política.

É claro que qualquer simples filme para diversão veicula espontaneamente alguma espécie de ideologia. No caso em questão, a ideologia de que o homem comum pode lutar contra o sistema e de alguma forma vencer, fazendo com que o “bem” triunfe no final, mesmo sofrendo baixas. Em toda guerra há baixas. E há um ditado que diz que em toda guerra a primeira baixa é a verdade. A vitória do “bem” no cinema permite que o espectador retorne tranqüilo para casa, pois ele aprende que aquilo que foi mostrado na peça de ficção, o perigoso domínio do mal “nunca aconteceria no mundo real”.

Por cima dessa ideologia, comum a todo o cinema comercial hollywoodiano, há no filme em questão uma premissa ostensivamente fictícia, que não pode aspirar a nenhuma pretensão de realidade. Os termos em que a trama de manipulação do candidato são apresentados resvalam explicitamente na ficção científica. O candidato é controlado por uma tecnologia de implante cerebral, que lhe foi introduzido por uma obscura organização secreta. Não há referências senão marginais a interesses concretos e corporações manipuladoras tais como se apresentam no mundo real.

O nome original do filme é “The Mandchurian Candidate”. “Mandchurian Global” é o nome de um fundo de investimentos com tentáculos espalhados por todo o mundo, assessorado por ex-políticos e chefes de Estado, dedicado a explorar oportunidades de negócios com o governo. Basicamente, contratos de fornecimento de armas. O candidato da corporação Mandchurian é uma marionete colocada na Casa Branca para materializar de vez o domínio da corporação sobre a política estadunidense. Temos então uma autêntica tentativa de golpe de estado corporativo, um vilão plenamente adequado para a fórmula maniqueísta predominante naquela cultura.

Uma trama política que apela para expedientes de ficção científica perde assim, propositalmente ou não, a possibilidade de fazer analogias com o mundo real. Ela abre mão da possibilidade de se referir a eventos e relações do mundo real, a não ser como fábula. Se a ideologia do homem comum que enfrenta o sistema não deu resultado no mundo real (Michael Moore não conseguiu impedir a reeleição do candidato fantoche), qual é a graça de ver esse confronto representado no cinema?

A fábula sobre manipulação que poderia ensinar alguma coisa sobre o mundo real foi impiedosamente destroçada pelos eventos concomitantes deste mesmo mundo real. E os envolvidos na produção, por sua vez, aprendem a lição de que o “timing” é uma consideração importantíssima ao se planejar o lançamento de um filme. Um “thriller” com tema político-eleitoral não funciona em plena temporada eleitoral porque a própria eleição se mostrou mais eletrizante que qualquer ficção.

Infelizmente, no mundo real, não houve final feliz. O “Halliburton Candidate” foi eleito. Nesse contexto, um filme com final feliz serve apenas como prêmio de consolação para quem torceu pelo cavalo perdedor. A limitação do impacto de “Sob o domínio do mal” chega a ser algo a se lamentar, em virtude da importância artística dos envolvidos na produção. O diretor Jonathan Demme é um artesão competente, Meryl Streep dispensa comentários, Denzel Washington costuma fazer a lição de casa, Liev Schreiber é o perfeito filhinho da mamãe e John Voight é um veterano digno.

É possível que quando todos tiverem esquecido a recente eleição estadunidense o filme ganhe algum interesse para quem o descobrir numa prateleira de locadora. Em si mesmo, “Sob o domínio do mal” não é de todo ruim. É uma produção comercial hollywoodiana, mas realizada por jogadores de primeiríssimo time, inclusive devidamente oscarizados, etc. e tal. Essa equipe esforça-se com competência para defender a premissa absurda de um roteiro que admite chips de controle da mente.

O diretor ousa ao tentar carregar no clima de suspense psicológico, por meio de cenas em close do elenco falando de frente para a câmera. Há em alguns momentos a tentativa de especular sobre até que ponto um homem pode estar certo de sua realidade, de quando está sonhando e quando está lúcido, na linha dominante da melhor ficção científica recente. Há uma tensão erótico-edipiana entre os personagens da mãe senadora e do filho candidato a vice-presidente. Há um desenlace no estilo “assassinato de J.F.K.” Trata-se portanto de um filme bem arquitetado e complexo, com alguma dose de densidade imaginativa e cinematográfica, mas nem por isso totalmente bem-sucedido.

Como dissemos antes, ele aborda apenas elipticamente o contexto político contemporâneo. Não se assume como uma denúncia frontal da manipulação operada pela gangue de Bush, que não é o papel de um filme de ficção. Mas ambiguamente, não se furta a abordar a atual conjuntura geopolítica global, em face da estratégica de política externa estadunidense, ainda que o faça de forma “envergonhada”. Cuidadosamente, tenta-se fazer de conta que o filme foi rodado fora do tempo e do espaço, sem conexão com o mundo concreto, sem a pretensão de nele intervir.

As alusões que nele aparecem são uma tentativa de alcançar um realismo puramente cinematográfico. Algumas das melhores cenas estão nessas “envergonhadas” alusões à situação real. Há uma série de divertidas inserções de noticiário apresentando crises políticas fictícias. Por exemplo, uma crise em que se ameaça bombardear a Guiné sob a suspeita de que a república africana possui armas químicas. Armas químicas na Guiné? Um completo absurdo, é evidente. Do mesmo modo que as “armas de destruição em massa” no Iraque. E no entanto lá estão os marines...

E finalmente, caso não sirva sequer como prêmio de consolação, “Sob o domínio do mal” serve pelo menos como piada. Pois explica, através do implante de chip no cérebro, a estupidez do atual inquilino da Casa Branca.

Daniel M. Delfino

14/11/2004

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